O que é que as setas do Cupido e a cadeira de escritório da Miss Lolita têm em comum? A resposta está no quinto episódio do Tinderella: O Amor nos Tempos do Digital, onde falamos das mágoas, feridas e cicatrizes emocionais que o online dating vai deixando pelo caminho. A grande questão é: vamos curar feridas… ou pôr o dedo na ferida?
Quando cerca de 80% dos utilizadores de dating apps entre os 18 e os 33 anos já experienciaram ghosting pelo menos uma vez (Plenty of Fish, 2016), é inevitável perguntar: será que mudamos quem somos — ou a forma como nos apresentamos — depois de algum tempo nas apps? As nossas bios refletem defesa, consciência ou medo? Sabemos, de facto, definir limites claros nas relações que criamos?
Para nos ajudar a responder a estas perguntas, convidámos o psicoterapeuta João Delicado, que nos guia pelas zonas mais sombrias e sensíveis que transportamos connosco: o que projetamos nos outros, que limites impomos (ou não!) e porque é que a rejeição nos magoa tanto. Revisitamos também os tempos da pandemia e refletimos sobre como a solidão se pode tornar um vício, mas também como a dor emocional pode ser um sinal do que ainda precisa de ser curado. Discutimos se o ghosting é apenas um reflexo da liquidez das relações ou uma estratégia de autorregulação num mundo saturado de estímulos e comunicações constantes. Será ausência de empatia, rebeldia face ao imediatismo ou simples incapacidade de lidar com o desconforto de dizer “não”? Falamos ainda de comunicação indireta, comportamentos infantis e da confusão emocional que surge quando falta autenticidade, porque sem autenticidade não há intimidade, nem verdadeira nutrição afetiva. Questionamos ainda o impacto da validação externa: será que o nosso valor muda com o número de likes e matches? Ou estamos só dependentes de validação externa e presos numa perigosa montanha-russa de autoestima que nos gera ansiedade e instabilidade emocional?
Terminamos com uma nota de esperança: é possível sarar feridas e avançar. A dor mostra-nos o que precisa de ser revisto para não repetirmos padrões com pessoas diferentes na mesma personagem. Ficam os 3 R’s da ecologia interna: Respirar, para voltar ao corpo; Reconhecer, emoções e histórias por resolver; e Regular, emocionalmente, com pessoas seguras. Porque o amor não é um sentimento — é um processo. E cada relação merece um mapa novo, percorrido a dois. Talvez a melhor bússola seja simples: gostamos da pessoa que nos tornamos dentro daquela relação?
Este podcast foi produzido com o apoio da Rádio Metropolitana do Porto, consultoria técnica de Rita Sepúlveda, a edição é de Ana Azevedo, o design e logótipo de Joana Lírio e voz de Pedro Cadavez.
Séries Mencionadas:
Please Like Me – Prime Video
Jigsaw – Daniel Sloss