E se a tua dor não for tua? Sílvia Baptista
Sílvia Baptista e o que fica por dizer Há uma pergunta que Sílvia Baptista faz, de vez em quando, a si mesma. Não aos pacientes — a si. Quando alguém a irrita de forma desproporcional, quando a reação parece vir de um lugar mais fundo do que o incidente justifica, ela para. E pergunta: o que é que há nesta pessoa que há em mim? É um exercício pequeno, quase doméstico. Mas revela, melhor do que qualquer teoria, aquilo que a psicanálise é, no fundo: uma arte de se ver a si próprio no outro. De reconhecer, no que nos perturba lá fora, qualquer coisa que ficou por resolver cá dentro. Sílvia começou pelo jornalismo. Passou pela comunicação, pela escrita, pelas perguntas feitas a outros. E depois, a certa altura, fez a pergunta mais difícil — a si mesma. Tornou-se paciente. E ficou. Não como quem não tem para onde ir, mas como quem descobriu, no divã, o território mais honesto que conhecia. Hoje, do outro lado da consulta, trabalha com aquilo que as pessoas não conseguem ainda dizer. "Na psicanálise não interessa o que as pessoas estão a dizer", explicou-me. "Interessa é o que não estão a dizer." É uma inversão radical. Numa cultura que premia a articulação, a fluência, a capacidade de se apresentar bem — a psicanálise aposta precisamente no contrário. Acredita que o sentido habita o silêncio, o lapso, o sonho, o momento em que alguém quer dizer mãe e diz não. Acredita que a verdade escorrega pelas fissuras da narrativa apresentada. E a narrativa, ela frisou, muitas vezes nem sequer é nossa. "Somos, até muito tarde, aquilo que dizem que somos." Os pais, os cuidadores, a família — contam-nos uma história sobre nós, e nós acreditamos. Não por ingenuidade, mas por necessidade. As crianças dependem absolutamente de quem as tem. Não têm como não acreditar. E assim chegamos à vida adulta carregando versões de nós mesmos que foram escritas por outros, em circunstâncias que já não existem, para propósitos que já não servem. A terapia, neste sentido, não é uma cura. Sílvia foi clara nisto, e foi uma das coisas que mais me ficou. "Eu não acredito nas curas. A mente não é a preto e branco." O que a análise faz — o que pode fazer, no melhor dos casos — é tornar as coisas conscientes. Fazer ligações entre a dor de hoje e a sua origem. E devolver ao paciente uma narrativa que seja, pela primeira vez, genuinamente sua. "Isso", disse ela, "dá um alívio brutal." Há qualquer coisa muito contemporânea no que Sílvia descreve. Vivemos tempos em que todos publicamos versões editadas de nós mesmos, em que a palavra "autenticidade" se tornou um valor de marketing, em que a vulnerabilidade é exortada em conferências e monetizada em podcasts. Sílvia é crítica desta inflação. A vulnerabilidade, argumenta, não se pede. Não se convoca. Decorre da confiança, que por sua vez decorre da relação, que por sua vez precisa de tempo. "Exortar as pessoas à vulnerabilidade pode ser um ato muito narcísico de quem exorta." Dito assim, com aquela precisão clínica, soa a diagnóstico. Depois há o desejo. A conversa chegou lá a certa altura, e ficou. O desejo, em psicanálise, não é apenas o que queremos dos outros — é a força vital, o motor que nos empurra. E tem uma condição: nasce da falta. Só existe onde há ausência, onde há espera, onde há tensão entre o que é e o que poderia ser. Sílvia olhou para a geração mais nova com uma mistura de compreensão e inquietação. Têm casas para onde ir, telemóveis que comunicam em tempo real, acesso a tudo e a todos em qualquer momento. Nunca ficaram à espera de um telefonema que podia não chegar. Nunca entraram numa portada de prédio porque não havia outro sítio. E perderam, nessa abundância, qualquer coisa que ela não soube bem nomear mas que reconheceu sem hesitar: o prazer de não ter, e querer. "O prazer hoje é um fogacho", disse. "Serve para nos chitar naquele momento. Depois apagam a ficha." A metáfora é perfeita para o que estamos a viver. Não há falta, por isso não há desejo. Não há desejo, por isso não há prazer verdadeiro. Não há prazer verdadeiro, por isso precisamos de outro fogacho. A dopamina como substituto do amor. E o silêncio. Sílvia falou do silêncio como de um bem escasso. No consultório, sustenta-o. Espera. O paciente para, e ela espera. Sabe que o silêncio não é ausência — é elaboração. É o momento em que alguma coisa se está a organizar por baixo das palavras. Mas cá fora, o silêncio tornou-se insuportável. "Há pessoas que o único sítio onde encontram silêncio é na terapia." Quando disse isto, a sala ficou mais quieta por um segundo. Como se a frase precisasse de espaço para pousar. No final, quando a conversa tocava nos cinquenta minutos, perguntei-lhe como arrumava a cabeça depois de um dia inteiro a ouvir dores. Falou dos passeios com as cadelas, dos amigos, do namorado. E depois disse, sem hesitar, algo que não esperava de uma psicanalista: "Só há uma coisa que cura tudo. É o amor. O amor ao outro. O amor ao humano." Não o amor como conceito terapêutico. Não como técnica ou framework. O amor como facto. Como a única coisa que, no fim de tudo, funciona. Há qualquer coisa desconcertante em ouvir isso de alguém que passou a vida a ouvir o que não se diz. Porque sugere que, debaixo de todos os lapsos, de todos os padrões repetidos, de todas as histórias herdadas — o que as pessoas estão mesmo a dizer, o tempo todo, é que querem ser amadas. E que ainda não sabem pedir. Ler transcrição completa Sílvia Baptista00:00Na psicanálise não interessa o que é que as pessoas estão a dizer. Interessa é o que é que elas não estão a dizer. Ou seja, nesse caso, não interessa tanto o que é que a pessoa acha que tem. Interessa é o que é que a pessoa não tem e gostava de ter, mas também ainda não sabe o que é. A verdade é que há um desconforto, há um sintoma. Se o sintoma está lá, alguma coisa está lá. Não é só uma questão de birra. Jorge Correia00:36Imaginem que vão à consulta de psicologia, sentam-se e a terapeuta está à vossa frente e começam a falar. Contam a vossa semana, o stress do trabalho, as discussões com o parceiro, a sensação de que alguma coisa não está bem, mas não sabem bem o quê. E a terapeuta ouve. O que é que acham que ela está a ouvir? Não é o que estão a dizer, é aquilo que não estão a dizer. Foi isso mesmo que Silvia Batista me explicou quando nos sentamos para conversar. Silvia é psicanalista há mais de 20 anos, mas começou pelo jornalismo e isso, como vamos ver, não é um detalhe sem importância. A psicanálise tem uma ideia central que vai contra tudo aquilo que nos ensinaram. Desde pequenos aprendemos a articular, a explicar o que sentimos, a encontrar as palavras certas e depois chegamos a um consultório e descobrimos que as palavras certas podem ser precisamente o problema. Porque o que nos dói a sério, o sofrimento que nos traz até ali, não consegue sempre chegar à superfície em linguagem limpa. Aparece nos lapsos, nos sonhos, nos padrões que repetimos sem perceber porquê, no sagrado subconsciente, na história que nos contaram sobre nós e que muitas vezes não é a nossa. Essa foi a ideia que mais me ficou durante esta conversa, que nós temos uma narrativa sobre nós mesmos, uma versão do que somos, de onde viemos, do que nos aconteceu, mas o problema é que grande parte dessa narrativa foi escrita pelos outros. Pelos pais, pela família, pelas pessoas de quem dependíamos quando ainda não tínhamos escolha. E nós acreditamos. Claro que acreditamos. Eram as pessoas mais importantes do mundo. E o trabalho da terapia não é apagar essa história, é ajudar-nos a reescrevê-la com a nossa própria voz. Falamos também de algo que me parece cada vez mais urgente. O desejo. Não no sentido romântico, mas no sentido mais amplo. O que nos empurra, o que nos faz querer. A ideia é esta. O desejo precisa de falta para existir. Precisamos de não ter para querer ter. E aqui está o paradoxo da nossa época. Vivemos num mundo em que quase nada nos falta. Acesso imediato a tudo, entretenimento infinito, respostas instantâneas. Estamos, muitos de nós, profundamente apáticos. Não é coincidência. No fim desta conversa, perguntei-lhe algo muito simples. Como é que ela faz todos os dias, depois de ouvir dores e carregar histórias que não são suas, para conseguir sobreviver? E ela surpreendeu-me mais uma vez. Respondeu que só há uma coisa que cura tudo. É o amor. Não o amor como ideia, não como tema de conversa. O amor como prática concreta. Os amigos, a família, as pessoas que estão lá. Fiquei a pensar nisto depois de ela sair embora. Aqui está alguém que passou décadas a ouvir o sofrimento humano na sua forma mais bruta e a conclusão a que chegou, a única coisa que na sua experiência realmente funciona é o amor. Silvia Batista. Cá estamos. Psicanalista. Uma psicanalista da palavra e da voz, porque tu não és só uma psicanalista, tu dedicas muito do teu tempo a falar e a pensar sobre a questão da comunicação. Sílvia Baptista03:43Como é que é o teu dia-a-dia? O meu dia-a-dia é muito no consultório, a ouvir e a falar, mas muito mais a ouvir do que a falar. Curiosamente, a minha primeira formação é em comunicação. Eu venho da comunicação e venho do jornalismo. Então é daí que veio o teu segredo? Não, é… Bom, eu achei, houve uma altura que eu achava que queria ser jornalista, quando entrei para a faculdade e fiz o curso todo. Ainda fui uns anos jornalista e depois percebi que não era para mim. E depois passei por várias outras áreas até me tornar paciente de psicanálise. Jorge Correia04:26Foste fazer psicanálise? Sílvia Baptista04:27E depois fui estudar psicanálise e psicoterapia e cá estou. Jorge Correia04:31Todos os psicanalistas passam pelo divã primeiro? Sílvia Baptista04:33Sim, sim. Sempre? Absolutamente fundamental. Jorge Correia04:36E quanto tempo dura esse processo de formação? Sílvia Baptista04:38O de formação, eu diria até que não acaba. Obviamente há um processo base, que são quatro anos teóricos,
Manipulação ou ciência: como adivinhar pensamentos? João Blümel
🔔 Receba novos episódios 🎧|📺 https://perguntasimples.com/subscrever/ Já sabes o que vais escolher antes de escolher. João Blumel passou vinte anos a estudar exatamente isso — e a transformar essa descoberta em espetáculo. Nesta conversa, o mentalista português explica como a linguagem molda decisões, como as microexpressões traem o que tentamos esconder, e por que a nossa mente segue caminhos muito mais previsíveis do que gostamos de admitir. Destaques do episódio A diferença entre um mentalista e um mágico — e por que importa. Como traçar o perfil psicológico de alguém em dois minutos. O que as redes sociais têm em comum com um truque de mentalismo. Reframing: a técnica que muda a forma como vês o que te acontece. Por que nunca faz truques fora do palco — e o que isso diz sobre limites. O espetáculo que ainda não fez e que é o seu maior objetivo. Citação de Ouro "Somos todos previsíveis. A questão é saber para quê usar isso." 🔗 Episódio com João Blumel: https://perguntasimples.com/como-adivinhar-pensamentos-joao-blumel/ 🎦 YouTube: https://www.youtube.com/@pergunta.simples?sub_confirmation=1 🎧 Spotify: https://spoti.fi/3kb07qm 🍎 Apple Podcasts: https://podcasts.apple.com/pt/podcast/pergunta-simples/id1512308084 📺 RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p7644/pergunta-simples 🌐 Website: https://www.perguntasimples.com
Porque é que a rádio ainda não morreu? Pedro Ribeiro
🔔 Receba novos episódios 🎧|📺 https://perguntasimples.com/subscrever/ A rádio não é para as massas; é para uma pessoa de cada vez. Nesta conversa com Pedro Ribeiro, exploramos como a rádio sobrevive à era dos algoritmos através da autenticidade e da relação humana. Num tempo de ruído digital, a rádio afirma-se como uma comunidade invisível que oferece companhia e uma ligação orgânica que nenhuma máquina consegue replicar. Destaques do episódio A rádio como relação: por que comunicamos para um ouvinte de cada vez. Bastidores das Manhãs: a gestão de egos e o papel de "cola" na equipa. Resiliência do meio: como a rádio resiste à curadoria das Big Techs. O fator humano: a autenticidade de figuras como Nuno Markl e Cândido Costa. Rádio como serviço: o papel crucial da antena em momentos de crise. O poder do silêncio: a ferramenta mais eficaz para captar a atenção. Citação de Ouro “O megafone maior da rádio é o silêncio.” 🔗 Episódio com Pedro Ribeiro: https://perguntasimples.com/porque-a-radio-ainda-nao-morreu-pedro-ribeiro/ 🎦 YouTube: https://www.youtube.com/@pergunta.simples?sub_confirmation=1 🎧 Spotify: https://spoti.fi/3kb07qm 🍎 Apple Podcasts: https://podcasts.apple.com/pt/podcast/pergunta-simples/id1512308084 📺 RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p7644/pergunta-simples 🌐 Website: https://www.perguntasimples.com
O que comunica a música quando as palavras não chegam? Rita Redshoes
🔔 Receba novos episódios 🎧|📺 https://perguntasimples.com/subscrever/ O que comunica a música quando as palavras não chegam? Nesta conversa com Rita Redshoes, refletimos sobre criatividade, silêncio, medo e finitude. Num tempo saturado de discurso, talvez a música seja uma linguagem anterior à frase — uma forma de comunicação que vibra antes de explicar. Destaques do episódio • Como nasce uma canção: do sonho ao desassossego • A música como linguagem emocional e biológica • Criatividade como exercício de escuta • Medo, finitude e consciência do tempo • Maternidade e transformação da identidade • O palco como espaço de comunhão Citação de Ouro “Se nós tivéssemos mais presente que vamos morrer, se calhar vivíamos mais.” 🔗 Episódio com Rita Redshoes: https://perguntasimples.com/comunica-musica-quando-palavras-nao-chegam-rita-redshoes 🎦 YouTube: https://www.youtube.com/@pergunta.simples?sub%5C_confirmation=1 🎧 Spotify: https://spoti.fi/3kb07qm 🍎 Apple Podcasts: https://podcasts.apple.com/pt/podcast/pergunta-simples/id1512308084 📺 RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p7644/pergunta-simples 🌐 Website: https://www.perguntasimples.com
Quem matou o herói no futebol? Luís Cristovão
🔔 Receba novos episódios 🎧|📺 https://perguntasimples.com/subscrever/ Quem matou o herói no futebol? Nesta conversa com Luís Cristóvão, mergulhamos no paradoxo do desporto de elite: um mundo onde a exposição total destrói a mística, os craques vivem isolados em "aquários" e a ditadura da tática ameaça sufocar a criatividade juvenil. Uma reflexão sobre a perda da dimensão humana num jogo cada vez mais formatado como espetáculo e negócio. Destaques do episódio A morte do herói no tempo do ecrã: Por que é impossível manter o mito quando vemos cada minuto da vida do atleta? O "atleta de aquário": O isolamento de figuras como Cristiano Ronaldo face à liberdade perdida de Eusébio. A cultura da zanga: Como as redes sociais e o comentário televisivo transformaram o futebol numa guerra tribal. Matraquilhos humanos: O perigo da formatação tática que castra a criatividade desde a infância. Rádio vs. Televisão: A responsabilidade de narrar a emoção e o contexto para quem não está a ver. O erro como espetáculo: Porque preferimos discutir a falha do árbitro em vez da beleza da jogada. Citação de Ouro “Hoje em dia é quase impossível ser herói, porque nós vemos todos os minutos que cada jogador joga na sua carreira e ninguém é herói durante toda a vida.” 🔗 Episódio com Luís Cristóvão: https://perguntasimples.com/quem-matou-o-heroi-no-futebol-luis-cristovao 🎦 YouTube: https://www.youtube.com/@pergunta.simples?sub_confirmation=1 🎧 Spotify: https://spoti.fi/3kb07qm 🍎 Apple Podcasts: https://podcasts.apple.com/pt/podcast/pergunta-simples/id1512308084 📺 RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p7644/pergunta-simples 🌐 Website: https://www.perguntasimples.com